A relação entre crianças e dispositivos digitais divide opiniões, mas a rejeição ao uso de celular é especialmente forte nos primeiros anos de vida. Uma pesquisa do Instituto Locomotiva mostra que 82% dos adultos brasileiros desaprovam que crianças de até três anos usem o aparelho. O levantamento também indica que a preferência por atividades fora das telas continua presente entre os entrevistados.
Segundo reportagem da Agência Brasil, 73% dos participantes consideram melhor que a criança brinque na rua do que permaneça diante de telas. O resultado coloca a convivência presencial, o movimento e as brincadeiras tradicionais no centro das expectativas dos adultos sobre a infância.
Rejeição é maior entre as crianças menores
A avaliação muda conforme a faixa etária. Entre crianças de quatro a sete anos, 75% dos adultos ouvidos também desaprovam o uso do celular. Embora o índice seja inferior ao registrado entre os menores de três anos, ele ainda revela uma resistência expressiva à presença do aparelho na rotina infantil.
Os números sugerem que, para grande parte dos brasileiros, a primeira infância deve ser menos dependente de dispositivos pessoais. A pesquisa não apresenta uma condenação absoluta da tecnologia, mas mostra que a idade é um fator decisivo na percepção sobre quando o celular passa a ser aceitável.
Essa distinção é importante porque celulares fazem parte da vida cotidiana de famílias, escolas e grupos sociais. Ao mesmo tempo em que oferecem acesso à comunicação e a conteúdos digitais, os aparelhos podem disputar espaço com momentos de convivência, brincadeiras e atividades realizadas fora das telas. O levantamento registra justamente essa tentativa de estabelecer limites de acordo com o desenvolvimento da criança.
Aceitação cresce a partir da adolescência
Quando a pergunta envolve um aparelho próprio, 52% dos entrevistados consideram aceitável que a criança tenha celular até os 12 anos. A proporção aumenta entre adolescentes: 88% aprovam o uso por jovens de 13 a 17 anos. A diferença mostra que os adultos tendem a associar a autonomia digital ao avanço da idade.
O resultado também ajuda a compreender como as famílias brasileiras enxergam a entrada progressiva no ambiente digital. Para os participantes, o celular parece ser mais compatível com a adolescência do que com os primeiros anos da infância. Ainda assim, a pesquisa não detalha quais critérios os adultos usariam para definir limites, horários, conteúdos ou formas de acompanhamento.
Por isso, os dados devem ser lidos como um retrato de percepções sociais, e não como uma regra universal de criação. O estudo mostra o que os adultos pensam sobre o tema, mas não substitui orientações específicas de profissionais de saúde, educação ou desenvolvimento infantil. Também não permite concluir, isoladamente, quais efeitos o uso do aparelho produz em cada criança.
Brincadeiras presenciais seguem valorizadas
A preferência pela brincadeira na rua, apontada por 73% dos entrevistados, revela que o debate sobre celulares envolve mais do que o tempo de tela. Ele também diz respeito ao tipo de experiência que os adultos desejam preservar na infância: contato com outras crianças, exploração de espaços e participação em atividades compartilhadas.
Em vez de apresentar tecnologia e convivência como escolhas necessariamente opostas, os resultados indicam uma preocupação com equilíbrio. A questão central para muitas famílias é como incorporar ferramentas digitais sem permitir que elas ocupem todos os momentos de lazer ou substituam as interações presenciais.
Esse equilíbrio pode ser mais complexo em diferentes contextos familiares. O acesso a espaços seguros para brincar, a disponibilidade dos responsáveis e as necessidades de comunicação variam entre as casas. A pesquisa, porém, não investiga essas diferenças nem apresenta recortes regionais ou socioeconômicos. Seu foco está na percepção geral de adultos brasileiros.
O que a pesquisa revela sobre as famílias
O levantamento ouviu 1.367 homens e mulheres com 18 anos ou mais, entre 28 de setembro e 6 de outubro de 2026. A divulgação ocorreu em 9 de outubro, poucos dias antes do Dia das Crianças, celebrado em 12 de outubro. A proximidade com a data reforçou a atenção sobre hábitos infantis, lazer e convivência familiar.
Mais do que defender uma idade única para o primeiro celular, os números mostram uma mudança gradual de perspectiva. A desaprovação é predominante na primeira infância, permanece elevada entre quatro e sete anos e diminui quando a discussão passa para a pré-adolescência e a adolescência.
Para os adultos ouvidos, portanto, a tecnologia parece ser mais bem aceita quando acompanha o crescimento e a conquista de maior autonomia. O desafio apontado indiretamente pela pesquisa é conciliar essa entrada no mundo digital com experiências presenciais consideradas fundamentais para a vida social e familiar.

