O medo da violência tem interferido diretamente na forma como as mulheres brasileiras circulam pela cidade, organizam a rotina e participam da vida social. Uma pesquisa nacional dos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva aponta que 98% das entrevistadas adotam estratégias para reduzir riscos no dia a dia. As mudanças incluem evitar determinados locais, alterar trajetos, compartilhar a localização e deixar de sair em alguns horários.
Divulgado em 16 de setembro de 2026, durante o 20º Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o levantamento foi realizado entre 22 e 30 de abril, com 1,5 mil pessoas de 16 anos ou mais, de todas as regiões do país. A margem de erro é de 2,8 pontos percentuais. Os dados foram apresentados em reportagem da Agência Brasil.
Insegurança restringe escolhas cotidianas
Segundo a pesquisa, 94% das mulheres afirmam sentir insegurança diante da violência no cotidiano. Entre os homens, o índice é de 84%. Nos deslocamentos pela cidade, a percepção de medo também alcança 94% das entrevistadas, mostrando que sair de casa, escolher um caminho ou utilizar determinados meios de transporte pode envolver decisões adicionais de proteção.
Essas estratégias não se limitam a situações consideradas excepcionais. Elas aparecem em escolhas comuns, como decidir se é possível voltar para casa à noite, aceitar um convite, atravessar uma área específica ou frequentar um local desconhecido. A necessidade de avaliar riscos constantemente transforma a mobilidade em uma tarefa marcada pela vigilância e pela preocupação.
A apresentação da pesquisa, repercutida pela Agência Patrícia Galvão, destaca que o impacto da violência percebida alcança diferentes dimensões da vida. O problema, portanto, não está apenas na ocorrência de crimes, mas também na forma como a possibilidade de sofrer violência modifica comportamentos antes considerados naturais.
Lazer e convivência social também são afetados
O levantamento mostra que 62% das mulheres já mudaram hábitos de lazer por medo da violência. Além disso, 58% deixaram de frequentar lugares de que gostavam. A redução pode atingir encontros com amigos, bares, festas e outros espaços de convivência, diminuindo as oportunidades de descanso, diversão e participação na vida social.
Quando uma mulher deixa de aceitar um convite ou escolhe não permanecer em determinado ambiente por receio de voltar sozinha, a consequência ultrapassa a programação de um único dia. A insegurança passa a influenciar relações, experiências culturais e momentos de convivência. Em vez de decidir apenas pelo interesse ou pela disponibilidade, muitas brasileiras precisam considerar se o local, o horário e o trajeto parecem seguros.
O efeito também pode aparecer na organização prática da rotina. Compartilhar a localização com pessoas de confiança, avisar quando chega a um destino e buscar companhia para determinados deslocamentos são medidas adotadas para reduzir a exposição. Embora possam oferecer sensação de proteção, essas práticas revelam como a responsabilidade pela prevenção acaba incorporada ao cotidiano das próprias mulheres.
Medo afeta autonomia e circulação nas cidades
A pesquisa indica ainda que 78% das mulheres entrevistadas já sofreram algum tipo de violência. Esse dado ajuda a contextualizar por que a percepção de risco pode estar associada tanto a experiências pessoais quanto ao conhecimento de situações vividas por outras mulheres. A insegurança não é uniforme, mas aparece como uma barreira para o uso pleno dos espaços públicos e para o exercício da autonomia.
O impacto pode ser percebido em decisões relacionadas ao trabalho, ao estudo e aos deslocamentos, além do lazer. Escolher um trajeto mais longo, evitar o transporte público em determinados horários ou desistir de uma atividade são formas de adaptação que alteram o acesso a oportunidades e serviços. A cidade, nesse cenário, não é vivida da mesma maneira por todos os seus habitantes.
Os resultados reforçam que discutir a segurança das mulheres envolve observar não apenas estatísticas de violência, mas também as escolhas que deixam de ser feitas por causa do medo. A liberdade de circular, encontrar pessoas, estudar, trabalhar e aproveitar espaços de convivência depende de condições que permitam às mulheres ocupar a cidade sem precisar restringir continuamente a própria rotina.
Como a pesquisa foi realizada
O estudo ouviu 1,5 mil pessoas com 16 anos ou mais, em todas as regiões brasileiras, entre 22 e 30 de abril de 2026. A margem de erro informada é de 2,8 pontos percentuais. A pesquisa foi desenvolvida pelos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva e integra o conjunto de levantamentos sobre percepção da violência e seus efeitos sobre a vida das mulheres.
As informações metodológicas e os dados relacionados a pesquisas de opinião estão reunidos também na página da Agência Patrícia Galvão. O banco de dados do Dossiê Agência Patrícia Galvão reúne pesquisas e fontes sobre violência contra as mulheres no Brasil.

