Área gastronômica terá curadoria do chef Pedro Siqueira e reunirá restaurantes que mostram como a comida brasileira convive com tendências internacionais.
O Rock in Rio 2026 não terá apenas música como protagonista. A edição deste ano também aposta na gastronomia como parte essencial da experiência do público, com uma Gourmet Square que reúne restaurantes e chefs selecionados pelo chef e empresário Pedro Siqueira. A proposta acompanha uma tendência que ganhou força nos grandes festivais internacionais: transformar a alimentação em uma experiência cultural, com identidade, qualidade e variedade suficientes para deixar de ser apenas uma pausa entre os shows. A escolha de Siqueira para a curadoria acrescenta ainda uma dimensão internacional ao projeto, já que o chef acumulou experiências em restaurantes de referência na França e no Brasil. (Google)
Para quem vai à Cidade do Rock, a mudança é significativa. Em vez de encontrar apenas opções rápidas e padronizadas, o público poderá conhecer cozinhas comandadas por profissionais com diferentes trajetórias e propostas. A seleção também ajuda a revelar como a gastronomia brasileira vem incorporando influências estrangeiras sem abandonar ingredientes, técnicas e sabores que fazem parte da identidade nacional.
Por que a gastronomia ganhou tanto espaço nos grandes festivais
A presença de restaurantes reconhecidos dentro de um festival musical mostra como a experiência gastronômica passou a fazer parte do entretenimento. O público contemporâneo não procura somente assistir a apresentações, mas também deseja descobrir sabores, compartilhar experiências e encontrar ambientes que possam ser explorados durante várias horas. Grandes eventos internacionais já trabalham há anos com essa lógica, aproximando chefs, restaurantes, produtores e marcas de um público que valoriza cada vez mais a qualidade do que come. No Brasil, a Gourmet Square do Rock in Rio acompanha esse movimento ao colocar estabelecimentos conhecidos no centro da experiência da Cidade do Rock.
A escolha dos restaurantes também pode funcionar como uma espécie de mapa gastronômico do Rio de Janeiro e de outras partes do país. Em vez de uma cozinha única, o público encontra diferentes estilos, passando por receitas brasileiras, massas, pizzas, culinária japonesa, sanduíches e criações contemporâneas. Essa diversidade é importante porque reflete a própria formação da gastronomia brasileira, marcada pela combinação de tradições indígenas, africanas, europeias, asiáticas e de diferentes culturas migrantes. A mesa brasileira nunca foi isolada do mundo, e os restaurantes contemporâneos mostram justamente como essas influências podem ser reinterpretadas sem perder personalidade.
O interesse pela gastronomia também tem impacto direto no turismo. Restaurantes e chefs podem se transformar em motivos adicionais para visitar uma cidade, especialmente quando seus nomes aparecem associados a grandes eventos, premiações e experiências culturais. O Guia Michelin, por exemplo, destacou em sua edição de 2026 que a cena gastronômica de São Paulo e do Rio de Janeiro continua dinâmica, com novos restaurantes e diferentes estilos de cozinha convivendo com estabelecimentos consagrados. A edição deste ano concedeu três Estrelas Michelin a Evvai e Tuju, em São Paulo, tornando-os os primeiros restaurantes com essa distinção no Brasil e na América Latina. (Michelin)
Quem é Pedro Siqueira e por que sua curadoria chama atenção
A escolha de Pedro Siqueira para comandar a seleção gastronômica do Rock in Rio também diz muito sobre o perfil que o evento pretende apresentar. Paulistano radicado no Rio de Janeiro, o chef construiu uma carreira que combina formação inspirada na cozinha francesa, experiências internacionais e atuação em restaurantes brasileiros. Entre suas experiências está uma passagem pelo Le Taillevent, em Paris, restaurante que possuiu duas estrelas Michelin, além de trabalhos em São Paulo e no Rio de Janeiro. Essa trajetória permite que o chef transite entre referências internacionais e ingredientes ligados à identidade brasileira. (Google)
Siqueira também ficou conhecido por projetos que aproximam diferentes tradições culinárias. Entre eles está a Ella Pizzaria, associada à popularização da pizza de estilo napolitano no Rio, além do restaurante Puro, no Jardim Botânico, que trabalhou uma proposta de culinária brasileira contemporânea. Mais recentemente, o chef criou a Sìsì Cucina, apresentada como uma cozinha italiana de alma carioca, com pizzas napolitanas e massas artesanais. Essa combinação de referências ajuda a explicar por que seu nome se encaixa em um festival que recebe pessoas de diferentes regiões do Brasil e visitantes estrangeiros. (Google)
A experiência internacional do curador também revela uma transformação na própria gastronomia brasileira. Durante muito tempo, cozinhas estrangeiras eram associadas principalmente à reprodução de receitas tradicionais de seus países de origem. Hoje, restaurantes brasileiros conseguem absorver técnicas internacionais e reinterpretá-las a partir de produtos locais, criando uma linguagem própria. É justamente esse diálogo que aparece em diferentes casas brasileiras reconhecidas pelo Guia Michelin, que observa simultaneamente a força dos ingredientes e sabores nacionais e a presença de cozinhas internacionais, como italiana e japonesa. (Michelin)
Para o visitante, isso significa que a Gourmet Square pode ser encarada como uma experiência gastronômica paralela ao festival musical. O interesse não está apenas em matar a fome entre um show e outro, mas em descobrir pratos, chefs e estilos que talvez não façam parte da rotina do público. Quando um evento desse tamanho coloca restaurantes em evidência, ele também cria uma vitrine para profissionais que podem conquistar novos clientes depois do festival.
O que a Gourmet Square revela sobre o futuro da comida em eventos
A programação gastronômica do Rock in Rio mostra que comida e entretenimento estão cada vez mais conectados. O festival deixa de tratar a alimentação como uma estrutura de apoio e passa a utilizá-la como parte da identidade da experiência. Essa mudança acompanha o crescimento do chamado turismo gastronômico, no qual restaurantes, ingredientes, chefs e mercados locais passam a influenciar a decisão de viagem tanto quanto atrações culturais tradicionais.
Esse modelo também favorece a valorização de cozinhas brasileiras. Quando pratos como tapioca, carne de sol, baião de dois, acarajé ou outros preparos regionais aparecem em espaços de grande visibilidade, eles alcançam pessoas que talvez nunca tenham experimentado essas receitas. O efeito pode ser ainda mais interessante quando a comida regional aparece ao lado de referências internacionais, porque deixa de ser apresentada como uma curiosidade folclórica e passa a ocupar o mesmo ambiente de consumo de cozinhas reconhecidas mundialmente.
A tendência pode beneficiar também pequenos produtores e profissionais da cadeia de alimentação. Um festival dessa dimensão movimenta fornecedores, cozinheiros, confeiteiros, produtores de bebidas, agricultores, distribuidores e equipes de atendimento. A gastronomia, nesse sentido, funciona como uma cadeia econômica ampla, que começa no campo e chega à mesa do consumidor. A Abrasel mantém iniciativas voltadas ao desenvolvimento do setor de alimentação fora do lar e, em setembro, promove em São Paulo a Semana da Alimentação Fora do Lar, reunindo empresários, gestores, chefs e profissionais para discutir o mercado. (Abrasel)
Para quem pretende visitar a Cidade do Rock, a principal dica é olhar a Gourmet Square como parte da programação e não apenas como uma praça de alimentação. O festival pode ser uma oportunidade para experimentar pratos de restaurantes conhecidos, comparar estilos e descobrir novas referências gastronômicas. E, para a própria cozinha brasileira, a presença desses chefs em um dos maiores eventos culturais do país reforça uma mensagem importante: comer bem deixou de ser coadjuvante em grandes experiências e passou a ser parte do espetáculo.
A Gourmet Square do Rock in Rio 2026 representa, assim, algo maior do que uma seleção de restaurantes dentro de um festival musical. Ela acompanha uma transformação global na maneira como o público se relaciona com comida, turismo e entretenimento, ao mesmo tempo em que oferece uma vitrine poderosa para a diversidade gastronômica brasileira. A curadoria de Pedro Siqueira reforça esse encontro entre técnica internacional e identidade local. Para o público, o resultado promete ser uma experiência em que música e gastronomia caminham lado a lado, mostrando que alguns dos melhores momentos de um grande festival também podem acontecer à mesa.

