Receber o diagnóstico de câncer de mama já é, por si só, um momento de sobrecarga emocional intensa. Para mulheres jovens que ainda desejam engravidar no futuro, esse momento vem acompanhado de uma decisão adicional, urgente e pouco discutida fora dos consultórios especializados: preservar ou não a própria fertilidade antes que o tratamento comece. O médico radiologista, Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues destaca que esse tema, chamado de oncofertilidade, ganhou relevância crescente à medida que mais mulheres jovens recebem diagnóstico de câncer de mama e sobrevivem à doença, o que naturalmente aumentou o interesse por reconstruir também o próprio projeto de maternidade depois do tratamento.
O motivo dessa urgência é biológico: tanto a quimioterapia quanto, em menor grau, a radioterapia podem comprometer de forma temporária ou permanente a reserva ovariana da mulher, levando à falência ovariana precoce e menopausa antecipada. Como a estimulação hormonal necessária para congelar óvulos precisa acontecer antes do início do tratamento oncológico, e o próprio tratamento não pode esperar indefinidamente, a decisão sobre preservar a fertilidade costuma precisar ser tomada em poucas semanas, um prazo curto para uma escolha tão significativa.
Por que o tratamento oncológico compromete tanto a fertilidade feminina?
Os medicamentos utilizados na quimioterapia são desenhados para atacar células que se multiplicam rapidamente, característica que define as células tumorais, mas que também está presente nos óvulos em desenvolvimento dentro dos ovários. Esse efeito colateral pode reduzir de forma significativa a reserva ovariana da mulher, antecipando a menopausa em anos ou décadas, dependendo da idade da paciente no momento do tratamento e do tipo específico de medicamento utilizado.
Segundo o Dr. Vinicius Rodrigues, essa informação nem sempre chega às pacientes no momento certo, já que o foco inicial da equipe médica, compreensivelmente, recai sobre o tratamento do câncer em si. Para ele, encaminhar rapidamente para um especialista em reprodução assistida deveria ser parte padrão do protocolo assistencial de qualquer mulher jovem diagnosticada, e não uma informação que depende da própria paciente perguntar ativamente sobre o assunto.
Como funciona, na prática, o processo de congelamento de óvulos antes da quimioterapia?
O procedimento mais utilizado envolve estimulação ovariana com medicamentos hormonais por aproximadamente duas semanas, seguida de um procedimento ambulatorial para coletar os óvulos maduros, que são então congelados através de uma técnica chamada vitrificação. Em casos de tumores sensíveis a hormônio, protocolos específicos combinam essa estimulação com medicamentos que bloqueiam receptores de estrogênio, reduzindo a exposição hormonal do tumor durante esse período necessário para maturação dos óvulos.

Na avaliação do Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, essa adaptação técnica é o que permite oferecer a preservação da fertilidade mesmo para mulheres com tumores hormônio-dependentes, população que antes enfrentava mais restrições para esse tipo de procedimento por preocupação com o próprio câncer se beneficiar do aumento temporário de estrogênio característico da estimulação ovariana tradicional.
Existe alguma opção para quem não pode esperar nem mesmo essas duas semanas?
Sim, embora com resultados um pouco menos previsíveis: em casos que exigem início imediato do tratamento, sem qualquer margem para estimulação ovariana, é possível realizar a coleta de óvulos ainda imaturos, que passam então por maturação em laboratório antes de serem congelados, técnica conhecida como maturação in vitro. Outra alternativa, ainda considerada experimental em parte dos protocolos, é o congelamento de tecido ovariano, retirado cirurgicamente antes do tratamento e posteriormente reimplantado quando a mulher desejar engravidar.
Para o Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, a existência dessas alternativas técnicas reforça que quase nenhuma situação clínica deveria impedir completamente a discussão sobre preservação da fertilidade, mesmo diante de urgência oncológica real. Ele destaca uma decisão recente do Superior Tribunal de Justiça determinando que planos de saúde no Brasil devem custear os gastos associados a essas técnicas para pacientes oncológicas, um avanço relevante para reduzir a barreira financeira que antes limitava esse acesso a quem podia pagar do próprio bolso.
Quais as chances reais de uma gravidez bem-sucedida depois desse processo?
A taxa de sucesso varia principalmente conforme a idade da mulher no momento do congelamento e a quantidade de óvulos coletados, com taxas de gravidez que podem alcançar a casa dos 40% a 50% em condições favoráveis. Esses números reforçam que a preservação da fertilidade não é uma garantia absoluta de gravidez futura, mas uma ferramenta real que amplia significativamente as chances, comparada à ausência completa dessa possibilidade depois de um tratamento que compromete a reserva ovariana.
O Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues analisa que oferecer essa informação de forma clara e no momento certo, mesmo em meio à urgência de iniciar o tratamento oncológico, é parte essencial do cuidado integral com a paciente jovem diagnosticada com câncer de mama. Para ele, tratar apenas o câncer, sem discutir esse projeto de vida que muitas mulheres carregam, deixa incompleta uma conversa que deveria acontecer sempre que o tempo clínico permitir.
A oncofertilidade representa um lembrete importante sobre como o cuidado oncológico avançou nas últimas décadas: tratar o câncer deixou de significar, automaticamente, abrir mão de outros projetos de vida. Garantir que essa informação chegue a tempo para cada mulher jovem diagnosticada é, hoje, tão parte do tratamento quanto a própria escolha do protocolo quimioterápico.

